Sobre TDLIC / About TDLIC

No último quarto de século, a discrepância entre o volume da investigação em literatura eletrónica e a que diz respeito ao seu ensino tem sido superada pela emergência de algumas abordagens importantes para a sua lecionação, especialmente no campo das humanidades digitais, mas também na sua introdução na educação formal, da educação infantil e do ensino básico aos ensinos secundário e superior. A atual investigação sobre o ensino da literatura eletrónica consiste em trazer estas obras para a sala de aula e proporcionar experiências de leitura literária digital aos estudantes. No entanto, estas práticas têm ainda pouca expressão nos diferentes níveis de ensino, talvez porque os responsáveis são os denominados imigrantes digitais, e não os nativos e, por consequência, à exceção de algumas universidades, as escolas refletem escassamente os desafios educativos da literatura eletrónica.

            Uma das razões invocadas para justificar a situação atual prende-se com a natureza híbrida e transdisciplinar da literatura eletrónica e com a consequente necessidade de juntar diferentes áreas de conhecimento para compreender a sua peculiaridade estética.

Com o estudo da literatura eletrónica não se pretende de forma alguma negar ou substituir a tradicional literatura impressa. Pelo contrário, esta área de estudos pretende abrir novos horizontes literários, através da leitura e utilização de outros tipos de texto, como, por exemplo, hipertexto, texto multimodal, texto não‑linear ou texto generativo, por forma a desenvolver as competências literárias dos estudantes, melhorando, em última análise, a competência de leitura literária em meio impresso. Com efeito, o potencial da literatura eletrónica é imenso, pois ela promove a criatividade, desenvolve a sensibilidade estética em ambiente digital, questiona a figura autoral, colocando os leitores e utilizadores numa situação mais dinâmica, participativa, interativa e imersiva.

No entanto, o ensino da literatura eletrónica deve também ter em conta as eventuais consequências dos nativos digitais na aula, quer nas práticas e estruturas de ensino quer de aprendizagem. Na verdade, a investigação sobre o ensino da literatura digital tem tido uma propensão mais analítica do que prática ou neurológica, o que torna importante a partilha de experiências didáticas e pedagógicas, bem como a demonstração de como estas têm de ser adaptadas tanto no que concerne à literatura eletrónica como às próprias competências digitais.

Do ponto de vista da investigação, têm sido feitos esforços para expandir a análise e a terminologia dos estudos literários e para criar uma e-literacia, ou seja, uma forma de olhar que vá além do modelo da literacia impressa. Estes esforços responderam a algumas das questões levantadas pela migração do impresso para o digital, mais especificamente para preencher a lacuna de modelos críticos para a interpretação deste tipo de obras e de terminologia específica para analisar e ensinar literatura eletrónica. Assim, foi feito um trabalho considerável para perceber a figuração e o estranhamento perante um conjunto de elementos navegativos, interativos, visuais, sonoros e performativos na interação com o texto, no processo ergódico, proporcionado pela literatura eletrónica, que requer uma ação exploratória física por parte do seu destinatário. Além de exigir familiaridade com estas características, a literatura digital também levanta a questão de saber se professores e alunos deveriam ter conhecimentos de programação ou mesmo se é possível ensinar e compreender obras digitais, em profundidade, sem este conhecimento específico. Cumpre, pois, discutir questões como: deveria o contexto educativo atual aproveitar o currículo oculto dos nativos digitais, explorando criticamente as possibilidades criativas, lúdicas e estéticas proporcionadas pelos objetos digitais? Poderão professores, bibliotecários, mediadores de leitura ou outros agentes educativos e literários ignorar a literatura digital infantil e juvenil, dado que ela propicia a participação lúdica dos jovens leitores e expande as suas competências criativas, imaginativas e críticas? Quão relevantes são estes artefactos, bem como a suas dimensões estética e expressiva para o desenvolvimento de uma literacia digital crítica?

O Colóquio Internacional Ensino da Literatura Digital procura contribuições de experiências didáticas e pedagógicas em qualquer nível educativo; relatos sobre a integração da literatura digital em currículos nacionais, locais ou institucionais; experiências de conceptualização e elaboração de programas para o ensino de literatura eletrónica; projetos de leitura que incluam obras digitais; estudos sobre os desafios e consequências do ensino da literatura digital. Também serão aceites propostas que analisem o modo como o estudo da literatura digital pode melhorar a leitura literária em meio impresso e desenvolver a criatividade dos estudantes.

Despite the evident disproportion between the volume of research on electronic literature and that on teaching electronic literature, over the past quarter of century some important approaches to electronic literature teaching have emerged. Particularly in the field of digital humanities, but also in the introduction of electronic literature in formal education – from kindergarten and elementary school, to high school and university. Currently, research on the teaching of electronic literature is done by bringing electronic literature into the classroom and by introducing digital literary reading experiences to students. However these practices are very little across all teaching degrees, perhaps because the so-called digital immigrants, and not the natives, are the ones still currently in charge. The biggest educational changes have not yet reached schools in a meaningful way, with the exception of some universities.

One of the evoked reasons that justify the current situation is the hybrid and transdisciplinary nature of electronic literature, and hence the need to bring together different realms and areas of expertise in order to understand its aesthetics.

By no means does the study of electronic literature aim to deny or replace traditional print literature. On the contrary, it intends to open up new literary horizons, by reading and using different forms of text, such as hypertext, multimodal, non‑linear, or generative text, that develop students’ literary competence and eventually also enhancing print literature reading. Electronic literature favours creative empowerment and develops aesthetic sensitivity in the digital environment, questioning the authorial figure and putting readers and users in a more dynamic, participatory, interactive, and immersive situation.

But e-lit teaching should also take into account the potential consequences of having digital natives in class, for teaching and learning practices. In fact, research on electronic literature teaching has tended to be more analytical than practical or neurological, so it is important to share pedagogical and didactic experiments and show how these need to adapt to the subject of electronic literature or to digital skills.

From the researchers’ perspective, a lot of efforts have been made in order to expand literary studies’ analysis and terminology to electronic literature studies and to create a special electracy, i.e. new lens to see electronic literature beyond the print literacy model. These efforts have answered some of the questions raised by the migration from print to digital. In particular, they address the lack of critical models to guide the interpretation of these works and of specific terminology to analyse and teach electronic literature. For instance, relevant work has been done on the way figuration and estrangement show themselves in electronic literature within the set of navigational, interactive, visual, sonic and performative elements that interact with text, in an ergodic process that requires a physical exploratory action of its addressee. Apart from demanding familiarity with these features, e-lit teaching also raises the question of whether teachers and students should have knowledge about coding, or whether it is possible to teach and to fully engage with digital works without that specific knowledge.

Finally, should the current educational context take advantage of the hidden curriculum of digital native students by critically exploring the creative, ludic and aesthetic possibilities offered by digital objects? Can teachers, librarians, reading mediators and other literary education agents ignore digital literature for children and young adults, given the fact that it invites the playful participation of young readers, expanding their creative, imaginative and critical skills? How relevant are those artefacts and their aesthetic and expressive dimensions for the development of a critical digital literacy?

The Teaching Digital Literature International Conference seeks contributions from pedagogical and didactic experiences at any educational level; reports about the integration of digital literature in national, local, or institutional curricula; design of syllabi for the teaching of e-lit; reading projects that include pieces of electronic literature; studies on the challenges and consequences of digital literature in learning, the sine qua non condition for learning digital literature. We are also interested in papers that look into how the study of digital literature may enhance print literature reading and may develop students’ creativity.